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INTIMIDADE EM CONSTRUÇÃO

Não sei se temos o que ensinar aos mais novos sobre relacionamentos, já que temos tropeçado nessas questões

QUAIS SERÃO os significados para namoro que os mais novos têm construído a partir da atenta observação que fazem do mundo adulto? Duas histórias ajudam a levantar algumas pistas a esse respeito.

A primeira teve como foco os adolescentes. Em uma conversa, duas mães trocavam ideias a respeito da novidade que enfrentavam: as relações amorosas dos filhos.

Uma reclamava que a filha não queria outra coisa a não ser namorar e que ela estava há semanas ocupada com o presente que daria ao namorado no próximo dia 12. Estudos, provas? Nem pensar.

Sua interlocutora, depois de ouvir a queixa, disse que ficaria feliz se sua filha tivesse um namorado. “Melhor namorar do que ficar, ficar e ficar”, disse. Em seguida, contou que já conversara com a filha diversas vezes na tentativa de convencê-la de que beijar vários meninos na mesma noite não a faria feliz, mas nunca tivera êxito.

A segunda história envolveu uma criança de quase sete anos. Depois que ela observou atentamente a mão de sua professora, perguntou por que esta usava duas alianças. Antes mesmo de a professora responder, arriscou sua hipótese e perguntou se ela tinha dois namorados.

A professora achou graça e esclareceu que se tratava de dois anéis e disse que ninguém tinha dois namorados. A garota prontamente respondeu: “Minha mãe tem”. A professora, totalmente sem graça, não soube como levar a conversa adiante.

Essas histórias ilustram duas características do mundo contemporâneo.

Hoje, pais e filhos conversam abertamente sobre suas relações amorosas. Não são apenas os filhos que consultam seus pais ou contam suas alegrias e/ou decepções nesse campo na expectativa de que, com sua experiência, eles possam ajudar.

Muitos pais que se separam e tentam construir uma nova relação se abrem com seus filhos para contar intimidades que, antes, eram proibidas.

Outra característica é o fato de que crianças pequenas têm aprendido coisas com os adultos que não lhes dizem respeito, ainda. Como elas não sabem disso, usam o que aprendem da maneira que podem e conseguem.

Por que será que muitos adolescentes têm preferido ficar a namorar?

Entre outros motivos, certamente porque constataram, direta ou indiretamente, que não é pequeno o número de adultos de seu círculo que reclamam dos compromissos que um relacionamento amoroso impõe. E compromisso, hoje, é sinônimo de aprisionamento, não é?
Por que será que crianças bem pequenas beijam seus pares na boca com muita frequência, querem “namorar”, sofrem de amor e versam sobre essas questões com a maior naturalidade? Porque acreditam que isso faz parte de suas vidas. E não faz?

Por que será que casais de adolescentes namoram escandalosamente em qualquer local público, sem a menor cerimônia? Porque eles nasceram e crescem num mundo que não tem clareza a respeito do que cabe no convívio social e do que deveria se restringir à intimidade.

Não sei se temos o que ensinar aos mais novos sobre troca de afeto, enamoramento, namoro e compromisso amoroso, já que temos, nós mesmos, tropeçado bastante nessas questões depois que o mundo trocou seus principais valores. Nossa contribuição talvez seja a revisão da hierarquia dos valores que estabelecemos para o tema.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (Publifolha)

blogdaroselysayao.blog.uol.com.br

Autor: Rosely Sayão

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