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“TERRA E CIDADANIA” O futuro depende do presente

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Vivemos em um período que é uma crise, dizia Milton Santos ainda na primeira década do Século XXI. Essa crise possui dimensões múltiplas e contornos ainda pouco precisos, fruto de uma série de transformações do padrão tecnológico que consolidou a possibilidade de vivermos coletivamente em um “sistema mundo”.

Esse sistema mundo está ancorado em um modelo de desenvolvimento de alta velocidade, seja na produção de novos artefatos tecnológicos, que inovam objetos em relações nas diversas escalas; na produção e consumo de bens e serviços em todos os lugares do mundo, com demanda crescente por energia e recursos naturais; na substituição da mão de obra por robôs, na ampliação das desigualdades entre os lugares e entre as classes sociais em cada um dos lugares, entre etc.

A velocidade com que o mundo se renova parece não ser acompanhada pela capacidade de reciclagem dos processos naturais, e nem pelas organizações sociais, cujo tempo de adaptação às novas condições é bem mais lento, seja por questões culturais que atravancam as mudanças, seja por nossa incapacidade de produzir, na mesma velocidade, significações sócio-políticas ou, mais concretamente, novos postos de trabalho para aqueles substituídos pelo desenvolvimento tecnológico. É um mundo em mutação.

Neste contexto, o presente se configura como um tempo de conflitos sociais, políticos, econômicos e ambientais; e o futuro – uma promessa desde a modernidade – parece ter sido, como nos ensina Bauman, hipotecado. Segundo ele,

Vivemos o fim do futuro. Durante toda a era moderna, nossos ancestrais agiram e viveram voltados para a direção do futuro. Eles avaliaram a virtude de suas realizações pela crescente (genuína ou suposta) proximidade de uma linha final, o modelo da sociedade que queriam estabelecer. A visão do futuro guiava o presente. Nossos contemporâneos vivem sem esse futuro*. Fomos repelidos pelos atalhos do dia de hoje. Estamos mais descuidados, ignorantes e negligentes quanto ao que virá. (BAUMAN, Z. entrevista cedida à revista Época 19/02/2014).[1] *grifo meu

Isso parece ser um fato na medida em que refletir sobre nossas ações no presente, e suas implicações na construção do futuro, depende de um certo distanciamento e frenagem com relação à velocidade do tempo. O turbilhão da modernidade que atropelava a todos (Berman:1983) parece ter se convertido em um tsunami que invade tudo o que aí está e, dada a potência da nova onda, parece que pouca coisa ficará de pé, se não formos capazes de agir. Agir rapidamente e com responsabilidade.

Não se trata de negar as possibilidades tecnológicas, mas refletir sobre usos e formas de apropriação que permitam a produção de um mundo socialmente mais justo, menos desigual e ambientalmente sustentável.

Alguns cientistas, ambientalistas e ativistas sociais têm desenvolvido a ideia de que, neste momento de crise, é necessário agir, mas que nosso agenciamento seja orientado pelo “princípio da precaução” e, claro, por um senso forte de responsabilidade social e ambiental.

Segundo Sevcenko,

o fundamento do princípio da precaução é o de que quando uma tecnologia ou produto comporta alguma ameaça de danos à saúde pública ou ao meio ambiente, garante-se que antes de serem liberados eles sejam evitados ou postos em quarentena para maiores estudos e avaliações. (...). Os três elementos chave que compõem o princípio da precaução são: 1. O reconhecimento de que determinada técnica ou produto envolve algum potencial de risco; 2. Reconhecimento de que pairam incertezas científicas sobre o impacto imediato ou as consequências futuras relacionadas aos usos de determinado produto ou técnica; 3. A necessidade de agir preventivamente em relação aos riscos latentes em quaisquer situações desse tipo. (SEVCENKO: 2001. p. 102 - 103)

Assim, refletir em torno dos problemas que assolam nosso presente e buscar agir com precaução e responsabilidade, é também reconstruir uma representação de futuro como algo positivo, resgatar a esperança de produzir um mundo no qual se deseja viver e, com determinação, retornar a acreditar que é possível produzirmos um mundo melhor, senão para todos, ao menos para a maioria. E isso parece depender do esforço de cada um de nós.

Vivemos em um “mundo globalizado”, bastante diverso e desigual, que articula os lugares através de redes de naturezas diversas que nos informam que a(s) saída(s) – a construção de alternativas – não se dará apenas a partir do lugar, mas de um conjunto complexo de relações que se processam e se interpenetram em diversas escalas que vão da local à global.

Milton Santos dizia que “cada lugar é, à sua forma, o mundo”, produto de trajetórias e processos que se manifestam diferentemente em cada lugar, que orientam – e dependem – o conjunto de objetos presentes, as técnicas sociais e, claro, a disputa política pela produção de sentidos e finalidades de realização das ações, além da capacidade de se organizar socialmente para produzir o lugar.

A pluralidade de possibilidades levou David Harvey a questionar a noção de globalização – que ele considerou totalitária – para propor a noção de desenvolvimento geográfico desigual que, para ele, designa melhor a pluralidade de situações que temos no mundo contemporâneo e a diversidade de alternativas que se pode propor para a produção de um futuro ambientalmente mais sustentável, social e economicamente mais justo e politicamente mais democrático. Esses parecem, ao menos aos olhos de diversos cientistas sociais, princípios que devem ser buscados, ainda que as estratégias para a sua promoção sejam bem diversas.

Chimamanda Ngozi Adichie em uma palestra magistral proferida para uma turma de formandos nos EUA alertava para os riscos de uma narrativa histórica única e, mais ainda, da importância de se pensar o mundo a partir de uma pluralidade real da experiência humana na Terra, valorizando a riqueza da diferença, sem negar as possibilidades de aproximação e aprendizagem e troca entre os diversos grupos. Boaventura de Souza Santos, em uma perspectiva diversa, mas que pode ser aproximada, propõe uma ecologia de saberes que devem ser colocados em circulação não apenas para compreendermos melhor o mundo, como também para orientar melhor nossas ações.

As possibilidades são imensas, e exemplos estão em toda parte.

Quando o mundo todo parece ser pressionado pela questão ambiental em diversas frentes como a (perda de) biodiversidade, o desmatamento, o aquecimento global, a poluição do ar e das águas, a necessidade de se desenvolver formas alternativas de energia, etc. jovens pressionam por políticas mais responsáveis em escala global e desafiam os caminhos do desenvolvimento econômico dominante, como demonstra a ação perturbadora – e nem sempre benvinda – de Greta Thunberg em Davos, na Suíça.  Em uma posição mais radical, líderes indígenas como Davi Kopenawa, “A queda do céu” e Ailton Krenak “Ideias para adiar o fim do mundo” desafiam a “ordem” discursiva ambiental com o questionamento da (in) existência de uma humanidade apartada da natureza, vista como recurso, e sugerem caminhos alternativos para nossa existência na Terra. As posições são diversas, mas convergem na ideia de que o modelo dominante atual parece ser insustentável, ainda que os agentes hegemônicos se esforcem em mostrar a possibilidade de construir internamente um “desenvolvimento sustentável”. A questão central deste problema parece ser a necessidade de um debate em torno da qualidade do ambiente em que queremos viver, o que implica compreendermos os componentes envolvidos no problema e suas relações, bem como as finalidades de nossas ações e os comportamentos necessários para a promoção desse ambiente e da sustentabilidade das organizações sociais.

Na economia, dois problemas de difícil compreensão e, portanto, de encaminhamento, afloram em todos os cantos do mundo: o trabalho e a desigualdade.

O trabalho, profundamente impactado pela revolução tecnológica, precisa ser redimensionado em todo o mundo não apenas na questão da remuneração (um desafio importante), mas na própria composição e organização das atividades. Algumas profissões desapareceram – ou estão em processo de desaparecimento – outras se reestruturam sob novas bases, e ainda há um conjunto emergente que ainda está por ser definido. O sociólogo americano Richard Sennett, no livro “A corrosão do caráter” atenta para algumas transformações importantes no mundo do trabalho a partir da reestruturação do capitalismo como a perda da noção de “carreira”, a volatilidade do mercado, a flexibilidade (e o desafio da formação flexível), mudanças na ética e no tempo de trabalho, etc. Questões como os contornos éticos e sociais do trabalho, as relações de produção, os desejos, as projeções para as profissões, etc. parecem ser um tema fantástico para discussões, especialmente em um contexto mundial crescente de alienação e infelicidade nos mais diversos campos de atuação profissional.

A desigualdade é, sem dúvida, um desafio central na discussão do mundo contemporâneo e na projeção do mundo que desejamos viver. Os dados mostram que ela não apenas já é imensa, como está se ampliando não apenas entre os países, mas também dentro das sociedades. Recentemente o jornal Folha de São Paulo produziu 5 documentários sobre a desigualdade no mundo que impressionam não apenas pelos dados que apresentam, mas principalmente, pelas implicações sociais e políticas dele derivadas. As agendas sociais noticiadas diariamente na imprensa escrita e televisiva nos lembram que os “ajustes econômicos” do sistema dominante têm gerado uma série de protestos como os jaquetas amarelos na França e os levantes urbanos na América Latina contra as reformas da previdência e trabalhistas que indicam pressões grandes sobre o trabalho e os trabalhadores. Discutir os caminhos do desenvolvimento econômico passa hoje, necessariamente, pela organização e interação dos setores da economia e da busca de estratégias que permitam uma melhor distribuição da riqueza no mundo. Embora pareça haver consenso da necessidade de se repensar as bases da economia, as estratégias de como fazê-lo têm sido objeto de disputa em todo o mundo.  

As cidades, sobretudo as grandes cidades, são, sem dúvida, um objeto de debate sobre os caminhos da urbanização e problemas como mobilidade urbana, habitação, gentrificação, áreas verdes, etc. Refletir acerca da qualidade de nossas cidades e sobre as estruturas urbanas que queremos viver é fundamental. O urbanismo globalizado tende a aproximar as estruturas e as formas urbanas em todo o mundo, mesmo diante de formações sociais bastante distintas. Os escritórios de arquitetura globalizados produzem espaços a partir de uma lógica própria, nem sempre adequados às necessidades e desejos das sociedades. Refletir sobre a qualidade urbana dessas cidades e sobre as cidades em que desejamos viver é um trabalho difícil, sobretudo nas grandes cidades da periferia do sistema nas quais contingentes imensos da população encontram-se marginalizados. As Cartografias sociais têm nos mostrado a importância de contemplarmos perspectivas populares na definição do crescimento e desenvolvimento do que podemos chamar de urbanidade, com formas particulares e diversas de ler e propor caminhos para o espaço urbano. Como pensar e propor a ampliação do Direito à cidade é um desafio para todos que vivem nessas metrópoles.  

Na cultura, podemos ver um conjunto imenso de possibilidades pulsando por todos os lados, nem sempre bem compreendidas. Os espaços de manifestação cultural em toda sua força e pluralidade têm se reproduzido nem sempre de forma tranquila, ou pacífica. Poesia Slam, Hip Hop, grafite, paredão, pagode, funk são expressões da cultura que demonstram um novo horizonte surgindo, novas falas, novos temas. Mapear essas manifestações se constitui como um exercício importante para potencialização da diferença e promoção de políticas culturais públicas que sejam inclusivas. Os espaços de arte se multiplicam e se (re)produzem apresentando possibilidades amplas de sensibilização, mas nem sempre são visitados. Os museus de arte, por exemplo, têm dificuldade em se promover como espaços de acesso amplo, pois são normalmente vistos como espaços herméticos com exposições realizadas para iniciados, no entanto, muitos museus têm buscado se modernizar, transformando-se em espaços interativos nos quais os visitantes sõ peça fundamental na construção das exposições.

No que se refere à política, o que se vê é uma crise das democracias representativas em todos os lugares do mundo em que os aparelhos de Estado aparecem como estruturas distantes das sociedades e, não poucas vezes, como um grande instrumento de repressão, como mostra Agambem em seu livro “Estado de exceção” em que a política é praticada permanentemente a partir da lógica de um “Estado de Guerra” em que se justificam toda forma de abuso em função da urgência e eficácia das ações. Em outra perspectiva verifica-se que poucos são os indivíduos e grupos que se sentem representados na esfera pública e muitas são as publicações que apontam a “morte” das democracias. Pesquisas têm mostrado o desprestígio da “política” e do “Estado de direito” que vai perdendo força frente à lógica econômica da eficácia, o que tem contribuído para a eleição de governantes autoritários em diversos países. Pensar a relação Estado com a sociedade – hoje fortemente indexada pelo discurso econômico – e as estratégias de participação social nas políticas públicas é fundamental, além de nos obrigar a pensar as formas possíveis de organização política dos entes sociais, seja no controle do próprio aparelho de Estado, seja na construção de mecanismos de participação política democráticas. Será mesmo a democracia uma forma de governo a ser buscada?

[1] Acessível em https://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/02/bzygmunt-baumanb-vivemos-o-fim-do-futuro.html)

Confira, baixo, os subtemas e recortes separados por série e turma.