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Subtema 2ª série 2022

Brasil amefricanizado: um mosaico  e uma semente subversiva

Por que eu menciono as mulheres” – para abordar essa situação: “até o momento a mulher não contou para nada nas sociedades humanas. – Do que isto resulta? Que o padre, o legislador e o filósofo a trataram como uma verdadeira pária. A mulher (é a metade da humanidade) foi colocada fora da igreja, fora da lei, fora da sociedade […]”. (Tristan, 2015:110).

2ªA – De Firminas a Kambebas: corpos em trânsito nas ruas e avenidas do Brasil.

Sojourneur Truth nasceu em cativeiro e conquistou a liberdade por meio de uma fuga em 1826. Abaixo transcrevemos o famoso discurso intitulado “Ain’t I a woman?” (“E eu não sou uma mulher?”), atribuído a ela. Neste discurso, proferido na Convenção dos Direitos da Mulher, em 1851, na cidade de Akron, Ohio, Sojourneur fala do que era considerado feminino para a sociedade norte-americana da época e de como as mulheres negras eram deliberadamente excluídas: “Aqueles homens ali dizem que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem – quando tinha o que comer – e também aguentei as chicotadas! E não sou mulher? Pari treze filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher?” (LARA, Bruna de et al. # meu amigo secreto: feminismo além das redes. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2016.).

Assim como Sojourneur, Maria Firmina dos Reis, Márcia Kambeba, Carolina Maria de Jesus e tantas outras Marias desbravam lugares de fala, seja na literatura, seja em qualquer espaço, emprestam suas vozes em prol de uma luta de(s)colonizadora, de modo a convidarem a sociedade brasileira para um pensar crítico-reflexivo sobre os povos amefricanizados, por meio de narrativas, rituais sagrados, costumes e a própria língua/linguagem.

“A noite não adormecerá

Jamais nos olhos das fêmeas

Pois do nosso sangue-mulher

De nosso líquido lembradiço

Em cada gota que jorra

Um fio invisível e tônico

Pacientemente cose a rede

De nossa milenar resistência “  (Conceição Evaristo)

2ªB – 

Nossos passos vêm de longe” –  A dor, a luta e os desafios são uma constante na vida e na trajetória de todos os corpos marcados pelas diferenças, pelo silenciamento e pela desvalorização. Nosso conhecimento ancestral sobre cura, adoecimento, resguardos, evitações, alimentação, águas, astros, animais e plantas eram vistos como superstições e mitos. O conhecimento escolar e ocidental era imposto como processo civilizatório. Na escola, o incentivo era para desaprender as “superstições” para abrir a cabeça para o “conhecimento”, de modo que, começamos a negar a nós mesmas em busca de aceitação naquele novo lugar. 

Há um conceito muito presente no glossário feminista: sororidade. Sua origem remonta à palavra soror, irmã e, a contraponto da fraternidade, entre irmãos, preconiza a irmandade, a solidariedade entre mulheres.

Vilma Piedade, mulher preta – e não negra, conforme delimitou o europeu branco -, feminista e antirracista, percebeu que a sororidade não dava conta das questões raciais com as quais vinha se debruçando há tempos. “Não é sororidade, é dororidade. É uma dor específica, que une todas as mulheres, mas que é agravada pelo racismo, que só a mulher preta, só a juventude preta vai sentir”, afirma.  No topo da pirâmide social, mais especificamente no Brasil, a mulher preta, a que se configura como “o outro do outro”. Desse modo, ao cabo de tudo, resta a pergunta, como um grito de alerta, a ser feita: Quem cuida de quem cuida?

2ªC – 

Face to face – Quem/Por que escondem nossa cara? Belezas exóticas? Exclusão de nossa luta: a perpetuação de estereótipos que, até hoje, sustentam o silenciamento e a violência contra a mulher… Flora Tristán, Lélia Gonzáles, Txai Suruí … 

O pária, metáfora utilizada por Tristan para descrever a situação das mulheres em geral e a si própria, se estende, posteriormente, aos excluídos e aos escravizados. Essa imagem representa, portanto,  todos aqueles e aquelas considerados indignos de “participar dos benefícios da humanidade”.

A integração e a potencialização de ideias sobre uma agenda que discuta a representatividade e as desigualdades que impactam a participação político-social das mulheres no país é, mais do que urgente, é inadiável.  

Com licença poética, de Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

( Adélia Prado. Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 11)

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